Bosta de poesia?


Poesia?

É papel higiênico.

Tem pra todo gosto.

Há quem procure a maciez aveludada...

Que se arrebenta nas pregas, do outro jeito,

Aos mais bravios

Que toleram, cruelmente,

- e até com certo sadismo –

Os cortes rascantes no rego

Por um milimétrico papel de pão!

Quem vai preocupar-se

Com as sandices da mídia,

E o mau gosto desse jornalismo verdade,

Se já tivera às tripas, ao informe,

algo de maior urgência.

Limpa-se sem vergonha dos destinos

Proclamados aos ventos pelos jornais.

Até mesmo há, não esqueçamos,

Quem procure embalar a bunda

Com papel cheiroso,

Ao contrassenso do que o espera

Aflito ao roçar das mãos. 

Poesia, poesia se é poesia

Faz do cu a incômoda

Morada, para todas as gentes.

Poesia, se poesia é algo no mundo

Não é privada, mas multidão.

Se faz, cria-se por compulsão espontânea,

Se processa em papel higiênico,

Que embora haja quem vire o

O nariz, certas horas,

Profetizará o comum, sem demora,

Na hora mais escura e desesperada.

Enquanto os anúncios assépticos  

- dos best sellers –

Aguardam, Por nada,

Inertes no saguão.

 

Anônimo

Acorde



Fio de medo, parte.
Para a melodia
em outras danças,
elas vicejam frente
ao desassossego.

Fio por fio,
daqueles cabelos,
tão soltos.
À envolver-me a memória,
entregue ao desejo de detê-los.

Fio de medo
desconfio que partas...
tal como a corda de um violino,
confio esse fato
à noviça esperança.

Solto meu sonho
ao harpejo do real.
Como temer o final?
quando a dor de um tom e a cor
que esboças, diz: "tudo podes"?

Fio do mesmo,
diferença à seguir.
Da melancolia invejosa
que não quer partir,
deixar que eu toque a vida em frente.

Esmurrar na parede, passada...
demente do agora,
o sem demora...
em meu peito,
belos fios me sufoquem.

Mas como poderiam me abafar,
quando assim me envolvem,
se percebi para que o vento
foge sem almejar por lembranças?

Possa tudo parar nessa hora.
Possa tudo desafiar a urgência,
do medo que já não tenho,
Tudo possa restar, deslizando-o
frio, em nossos dedos: o acorde.