Se vira?

Virar a quina do muro
Virar a esquina sem murro
Virar a dobra da noite pro dia
Virar a tristeza virar alegria
Virar o saber em não saber
Virar... se virar, virar do avesso

Pra não vir no escuro
Pra não vir no assalto
Pra não vir rendido
Pra não vir falido
Pra não vir sangrado
Pra não querer saber, se algo vai

Pois ali já está...
na dobra da nossa nudez
há mais alguns passos,
vir e ver
uns com os outros

e não dar com a cara no murro
e não ficar com o corpo pro muro
e não deixar que te digam
por mais que digam

de onde é que vem
como é que veem
é o passo que faz encontrar:

Vir ar!

percorrer a dobra do mundo
faz isso, o nosso
sentir-se aí, ser com o que pensar

Lance

Numa esquina de Copacabana
eu vejo o tempo que passa
acendo o cigarro que arde
à noite, enquanto o faço
um puro lançar de dados

enquanto te aguardo...
o quanto te aguardo...
te aguardo...
passar.

Passa por mim, aquele tempo, o arrepio
da brisa do mar de Copacabana

que isso não passa.
Lanço no ar a fumaça,
que se desfaz como o real
que não se dará.

A minha queda, não foi calculada
nem meu laço fora viciado,
é só a esquina, a brisa, e o aguardo.
A noite que envolve, sem recusas
a cair desse lance, amargo.

Será que censuro a tua colisão?
Será que eu comungo com o nada
essa passagem pelo bairro?
Será que o fogo acendido
pelo isqueiro, agora, abandonado
irá durar mais um... trago?

o que o cansaço nos trouxe,
como ele me trouxe até esse agora,
que passa?

Não deixei que outro se acendesse
respondendo ao apelo do encontro
Não cruzei-me com nada além
do passar daquela vadiagem

Minha estalagem
era o percurso
da rua nua,
do silêncio
sem procura,
da certeza de que
entre o cair e o lançar dos dados
sequer hesitei na sabedoria ali cavada,
na areia do tempo a nos dizer:
aqueles dedos, jamais se encontraram.