O Lá do Be (para Edgar Alan Poe)

Neste fato um 
ao lado

o não há
sejam vozes, murmúrios, sussurros 
ou delírios audíveis 
que calam.

Alguns apenas ouvem. 
Outros nunca mais falam

disso, se busca
isso à porta
fugitivos sonhos ao cochilo 
do tédio que se avoluma

o mortal tempo - fita-nos, 
um moebius escriturário?
sopro de vento 
ao pé da nuca

neste outro
o lado
Be

um diz-se
sinto-me, nele há de mim 
à espreita, do inaudível, 
desses momentos 
silenciosos
surge

ruído, o jamais... sentenciado
gélido em meus ossos
o olho nubla
ao suor rubro 
quê posso?
turvo do já, nela

ai de mim! tal sorte!

nubla mais
pensamento fugidio,
dia bólido, risca 
da longeva lista do hábito
desse estorvo hiperbólico

maquinaria 
de orgão
do nunca, 
orfão 

sob a alcunha 
de corvo 
em transe


mais
a gota lúcida
do entorno
transborda esse horizonte 
que te ignora, 
um corpo

esconderijo do viver,
o improvável, supra
ver menos
poison





meio: olhar (Para Michele A.)

- olhar
- no meio de nada

onde havia,

-nada, nada, nada
-nada, nada, nada
-nada, nada, ...

olha-se e


nosso,
meio olhar

o silêncio?

brisa

-olha!
-vocês viram o?
-era o quê mesmo?!

...ah! nada.

*


Chapéu


Fiz um despacho
No palco de sua vida
Deixei um chapéu emborcado
E no lugar da cabeça um livro, de poesia.
São quase pensamentos,
Desconfio,
E quem sente as linhas sabe como é infalível
Colocar entre os dedos esses fios de linhas
E a carícia acaricia quem acaricia
Despachei de minha mente fios soltos
E revoltos de poema
Para habitar o cenário dessa vida sem palco,
Dos fatos: é o que nos distancia.
Ao menos, distanciava... pois, agora,
Já que em mãos se dispõe o chapéu
Em seu lugar preciso
Cabe até um bom motivo,
Pra você me acenar algum dia.