Bem-te-vi

Saudade tem a idade do que se fizer
Só não tem nome nem endereço
Deixa espaço nas alíneas
P'ra se completar como quiser

Saudade de quem fez Paixão
chega num rompante
Saudade de quem fez Amor
Não vai embora nem um instante

Saudade tem a cor das coisas marinhas

Tem gosto salgado de lágrima que só
quando se está bem quieto e só
é que se percebe pescando de saudade

É uma certa fisgada no peito
Ou é uma distração que não tem jeito
Saudade corre solta com braços estendidos ao vento
Ou um balãozinho que estoura bem no alto, em descontentamento

Será que a gente vai saber a idade da saudade com o tempo?
Ou depois de um tempo não vai dar p'ra contar?
É que de repente percebe-se que a saudade faz a gente sorrir
Mesmo se estiver chorando depois de algo partir

A saudade tem a idade das coisas que ficam
Morando sozinhas e risonhas, quase loucas de saudade
E tem o nome dos dias felizes e tristes, que não se explicam
Faceira das horas chega de visita por um triz, cheia de vontade

É que a saudade é, ainda que de cara nova, uma senhora de idade
Não tem medo de envelhecer, mas se deixa morrer
p'ra nascer de novo
Desrazoado: quem tirasse dos braços um abraço ao invés do estorvo?
Ah! E quem é que já não se viu, assim, morrendo de saudade?