Papillon (para Michele Abreu)

A vida, à distância de um piscar de olhos.
Com passos sustenta o coração, em meio aos ossos.
Pisa por sobre o medo,  um abismo inteiro no peito
guardado. E a estes que de algum jeito ouvem cedo,


Pois não evitam o movimento, calados
rangem a ponte, cospem no sono, cansados.
Balançando-se ao sabor da brisa ou da tempestade,
enquanto a morte, verte em seu ventre a proximidade.

Segura na distração de uma cor, um buquê em flores, cintilante
a borboleta por segundos, há pouco a vi,  e já desencaminha...
O instante, do inclinar-se pela força do espaço, esvoaçante 
 ensina a verdade da queda, sem esconder o que se avizinha. 

Diz-se no rangido equilibrado, incrédulo, arrastado: cale! 
Tal vida e morte nos tocam numa só direção, há ribanceira.
Mudar, para durar tão pouco, por certo um dia, de quê vale?
Suspira e ao sentir o leve toque, desconcerto da faceira! 

Debruçada por sobre um sonho, assim pousada no ombro,
acolhe o impreciso, já que tudo que é breve mente, na decisão
Faça-se em nuvem um casulo cujo sentido seja nosso assombro.
és ti muda, noviça, sossega, o que resta? dá tua mão...





















Leve esboço ((καιρός)) (para Cris Rocha)



breve estarás
na beira de nós
seguindo pelo deslizar
na grama vasta
e o tempo se fará casca
da noz, 
partindo com desejo
o "abrindo-se" 
em Kairós

Abecedário da dança (para Jô Conti)

A cada hora, sussurrar ao ouvido
madrugando em si uma letra que seja
Bela a um coro de sonhos, motivo
para esquecer o real que se almeja


Conduzir a substância do presente
para o corpo que se balança
Despertar de quem não cobra o ausente
e sim delira junto uma outra dança


Escolhidos os passos entre pétalas e espinhos
lançá-los ao longe, só grama
Fique simplesmente aos pés descalços, despidos
no pulsar do coração de quem ama


Girando para 24 sentidos de gravitação
colidindo: sonhos, realidade e imaginário
Haverá 365 dias num calendário
ao menos sobre 1 a cada 4 anos para a invenção 


Incêndio nos andares abaixo, estilhaçam desejos
capaz de por em tais tons de cinza e negro
Jamais outros, em rascunhos, cobiçariam realizá-lo
desobedecendo tantos outros planos
KundaliniKm, Kg, que seriam? se agora mesmo
nesse inventário de caos e harmonia


Libertar-se das amarras é estar vivo para com alegria


alimentar o tecido da música em solfejo
Minutos a mais em vida se ganham


nessa partitura que encanta, com fome e esbraveja


Negar a fé cega no óbvio, para não se ter mais certeza 
se seremos aos deuses o que um macaco, num realejo, é ao humano    


Ouvir ainda isso ou outra oitava do sopro, vertigem 
 queda, que nos definiria como profanos
Paixão que, na desequilibrada cobiça é a miragem
mas tem sede real e a chama, sem enganos 


Quiçá, faz nascer no solo algo que ama
por baixo e acima de si,  fugir cristalina da artimanha
Redefinir o eixo, o solo, o céu, a terra num rosto 
colidir os olhares, no realizado agora posto


Som de mais 7 horas ressurgidas no poema, assim
ou seriam 7 minutos, 7 segundos apenas?
 por 8 multiplicado, 48 horas, de mim e de ti 
o quê fechado nosso olhar encena?


Tímidas, as palavras entre arte e órbitas agitadiças


Usurpam da


Voz a cadência, eletrizadas em 


Watts ainda, agitam-se


Xingam! em língua tupi-guarani ou
ainda humanos 
Yanomami, 
Zumbindo por vezes, em espírito, tons estranhos do açoite: 
sombras de nós, à meia-noite.


Contudo se o sopro, não passar despercebido, tornado coisa vã   
Cante pra nós, essa estrelada manhã? 





Designo (para Suliée Pepper)

Design desponta, detalhadamente
a nossa morte cotidiana.Teu secreto signo.


rascunho, desenho, por vezes e vezes mais
intentos de bravos seres intensos


imortalizo fagulhas, no instante secreto de um desejo
ritualizo a alma e o espírito, de quem em escolhas se consome


amarro o sopro ao percurso do ventos
E da vida, o quanto podes? o quanto queres?


Tanto em homens quanto em mulheres
a indiferença à arte de se viver é o que os destrói


Uma oração: amarra teus cabelos ao teu coração,
Dela, da vida, o quanto pedes?


Viver corrói:
quem ama, odeia, admira, confia, desconcerta-se.


Viver enferruja:
quem desobriga-se, adoece, pensa, duvida, cultiva.


Viver apronta:
na pele de quem está a altura do que sente.


Viver dói,
é um risco, ser alguém: e se reinventar,
em cor, em corpo, em alma.


a gosto viva,
decididamente.