O oráculo, a felicidade e a interpretação



-Onde está a felicidade? Pergunta um tolo ao oráculo.
-A felicidade jamais será uma imagem coesa e imperiosa em seu destino.
-Então é isso, pelo que você diz, eu tinha razão: eu nunca serei feliz!
Porque isso acontece comigo? Porque eu sou tão infeliz?
- A vida para quem é triste e para quem é feliz se apresenta da mesma forma: em fragmentos.
-Grande descoberta oráculo! sei muito bem como está a minha vida. Estou arruinado! Não deixaram pedra sobre pedra, estou completamente acabado – são esses os seus fragmentos.

-Quando há a junção daquilo que sentimos, com o que fazemos os outros sentirem aí sim,
é desses fragmentos, por vezes tão próximos ou afastados, que falamos em felicidade e da infelicidade.

- Você é cego oráculo. Não vê. A felicidade não dura nada e a infelicidade se estende de modo interminável pela vida.

-Você está certo. Responde o oráculo.
-Eu sempre soube, se o destino de todos é sofrer para pequenos instantes de paz, porque não desistir completamente? De que vale perguntar se há ou não felicidade? tudo é a mesma coisa.
-Você está errado.Responde o oráculo.
-Será que você pode se decidir se eu estou certo ou estou errado?

-A resposta a sua pergunta é: “você não está aqui”.

-Como assim, não estou aqui? Você é um imbecil oráculo.

O sábio se próxima e encontra o tolo, desolado.
-Diz o sábio: você não encontrará aqui nada mais do que já não saiba.
-Encontrei sim.Sei agora que um oráculo é o caminho mais curto para a infelicidade.
-Talvez. Oráculo é um ser infeliz que encontrou a paz, diz o sábio.
-Como pode ter encontrado a paz, continuando a ser infeliz?
- Quando as pessoas esquecem que ele existiu e o que ele disse, sua paz se realiza.

-Deve ser por isso que ele ficava falando essa coisa de: “você não está aqui”.
Está querendo se aproveitar de mim. Todos se deliciam com o meu sofrimento, não vê?
Grita o tolo ao oráculo: deve estar muito feliz agora, que me deixou ainda mais confuso. Não é?!

Nesse momento, se aproxima do oráculo e o faz em pedaços.
O sábio o olha por um breve momento e se distancia.
-Oh não, o que eu fiz! Agora serei odiado por todos. Com certeza o sábio proclamará aos sete ventos sobre a minha atitude.Todos me tornarão ainda pior do que antes, pois não existirá mais o oráculo para confortá-los.Estou condenado.

...

Algum tempo depois alguém perdido se depara com um vulto recolhido, aparentemente de um outro ser infeliz que se encontrava também naquele recanto já esquecido, e este alguém o pergunta:
-Como cheguei até aqui?

Sem receber qualquer resposta, ao se aproximar percebeu que na verdade não era uma pessoa que estava ali, mas uma ilusão provocada pelo formato de alguns galhos retorcidos, e fragmentos de rocha.

-Como sairei daqui, agora?
Logo após murmurar, porém, encontra uma placa no solo, onde podia ser lido:


“Caminhe o mais longe possível de si mesmo”.

Então ele sorriu, por seu ânimo oscilar tanto como o rumo das coisas, e se sentiu feliz por um breve momento.
Tudo se resumia há um passo, e uma resposta que serviria a perguntas totalmente diferentes.
Grande sábio seria, se soubesse escolher melhor as minhas perguntas. Profetizou.
Repousou, se alimentou e, tão logo possível, prosseguiu por outros rumos.