Bem-te-vi

Saudade tem a idade do que se fizer
Só não tem nome nem endereço
Deixa espaço nas alíneas
P'ra se completar como quiser

Saudade de quem fez Paixão
chega num rompante
Saudade de quem fez Amor
Não vai embora nem um instante

Saudade tem a cor das coisas marinhas

Tem gosto salgado de lágrima que só
quando se está bem quieto e só
é que se percebe pescando de saudade

É uma certa fisgada no peito
Ou é uma distração que não tem jeito
Saudade corre solta com braços estendidos ao vento
Ou um balãozinho que estoura bem no alto, em descontentamento

Será que a gente vai saber a idade da saudade com o tempo?
Ou depois de um tempo não vai dar p'ra contar?
É que de repente percebe-se que a saudade faz a gente sorrir
Mesmo se estiver chorando depois de algo partir

A saudade tem a idade das coisas que ficam
Morando sozinhas e risonhas, quase loucas de saudade
E tem o nome dos dias felizes e tristes, que não se explicam
Faceira das horas chega de visita por um triz, cheia de vontade

É que a saudade é, ainda que de cara nova, uma senhora de idade
Não tem medo de envelhecer, mas se deixa morrer
p'ra nascer de novo
Desrazoado: quem tirasse dos braços um abraço ao invés do estorvo?
Ah! E quem é que já não se viu, assim, morrendo de saudade?

A caneta sherazade

Era uma vez só, que a caneta escrevia. Enquanto o escritor fazia a vez de quem conta ela fazia de conta que não ligava – mas desligava, se não quisesse mais escrever. Era uma vez e só ela sabia quando veria ou não terminar. Era só de uma vez e pronto, ela se apagaria à medida que a frase terminava. Não tinha a paciência resignada da inspiração alheia. Não haveria tempo para isso com tanto trabalho a ser feito: eram gradações em cinza quase que intermináveis, entre o preto e o puro apagamento das palavras. Esses escritores adoram levar qualquer uma para a folha, e contam e recontam por quantas escritas já passaram. A caneta captava no ar, por pura expiração, as afirmações mais bravias - sem dispensar atenção às leves insinuações. Era uma caneta certamente feminina, por isso dava o troco de vez, e esquecia. Esquecia do autor, sem dúvida. Muito vingativa? Só se se contasse o porquê, para o que deveria se manter no rol das coisas inexplicadas. E até o cê explicar o cecidilha ela imaginava: e se... ser trocada por outra, então, era sem consolação com ela nem uma gotinha de tinta a mais sairia. Troca-se ela por outras e nada mais escrito vingava. Muitos escritores de uma hora para outra se viam fracassados – a caneta era muito amiga do traço e por isso sentia ciúmes de vê-lo se esfregando com outras. Não era uma caneta de estimação, pois se recusara, desde muito cedo, a fazer papel de amestrada. Afinal, de uma vez por todas, era só: uma caneta com seus ciclos adiantados; e em certos dias as palavras viriam avermelhadas; mas ela era uma senhora infalível. Apesar de ter toda pose de vara como já se disse era feminina. É ao menos o que um autor disse, entretanto no fundo é a palavra o que conta. E, obviamente, tudo se renovaria e o desejo que por ela passava a arrastava para folhas e folhas e outros lugares fazendo a reputação, sem ser puta por isso...é claro, só quando ela quisesse e ponto.

A guisa de retiro

"Mas um dia mostrarei a Deus a minha face. E esta será tão terrível que Ele se assustará. Minha face lhe dirá olhe, olhe o que você fez de mim ao me fazer humana. Mas será a cara de um cadáver sem susto, já sem perigo de morrer, nada mais tendo a temer. Quando eu perder meu corpo triste ficarei de espírito livre e solto nos ventos das montanhas. Sem nada o que fazer por toda a eternidade. Pousando numa árvore de tronco escuro, ora pousando numa das rochas da terra.As grandes perguntas me aterrorizam.Não ouso fazê-las. Mas eu serei alguma coisa depois de morta? E para quê?"

CL

Displicência própria

Escrever por sobre as fotos de um rosto, até que não se possa mais distinguir os traços. E enquanto por um momento sequer o risco se cumprir, nesse átimo teremos apenas o olhar como testemunho. Até que não restem fotografias. O olhar caça por entre as palavras o que quer que seja, límpido ou sujo, profundo ou na superfície. E sem enfeite as máscaras se desfazem, sem que saibamos ainda o que, além disso, é possível se fazer de nós. Não haverá identidade, pois a sombra não costuma ter dono, é apenas uma emissão fulgaz. Sombra, prenúncio da noite na qual, certamente, as fotografias insistem em resistir ao tempo. Para uma pequena caixa elas voltam, guardadas. E a lembrança é só o "apenas" – das tristezas e alegrias - por sob o curso da vida, ainda que baste para a vida o próprio esquecimento.

um livro de preferência

Aqui podemos encontrar uma pesquisa audaciosa e envolvente.
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